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Dilemas de um Crossdresser “Armarizado”
Dentre os motivos mais comuns que alguém apresenta para permanecer no armário estão a família, a profissão, os colegas de trabalho, a reputação social e as necessidades financeiras. CDs “armarizados” freqüentemente identificam sua eventual saída do armário como uma mudança radical e catastrófica nas suas vidas. Mas o que terapeutas, autores e a própria comunidade transgênera parece não perceber é que, em muitas situações, podem existir fortes necessidades emocionais que levam o indivíduo a permanecer no armário. A necessidade “número um” de crossdressers fortemente armarizados – e que pouca gente percebe – é que eles querem preservar a todo custo sua “identidade masculina” para quando não estiverem travestidos. É possível assim que, de modo inconsciente, eles sintam sua “saída do armário” como uma ameaça ao seu próprio “senso de masculinidade”.
Devemos ser muito cuidadosos nas nossas discussões e julgamentos a respeito de questões envolvendo as fronteiras entre gênero e papéis de gênero. Da mesma forma que não há nada de errado em um crossdresser macho possuir e apresentar ao mundo uma forte e saudável persona feminina, também não há nada de errado em se possuir um forte we saudável senso de masculinidade. Essa questão é particularmente importante para transgêneros crossdressers e travestis, embora até as transexuais tenham de manter algum senso de masculinidade para se sentirem uma pessoa inteira. Todos os seres humanos têm de encontrar e manter um equilíbrio saudável entre os aspectos e necessidades nitidamente femininos e masculinos da sua personalidade. Isso é particularmente essencial para pessoas transgêneras, porque nós sempre estamos muito preocupados e atentos em como o nosso gênero aparece para os outros. Entretanto, mesmo as pessoas cisgêneras (não-transgêneras) necessitam de manter o equilíbrio entre o trato feminino e o trato masculino da sua personalidade.
Isso também ajuda a explicar
porque os estudos sobre gênero estão se tornando cada vez
mais populares nos currículos universitários, assim como
jogos de RPG são tão apreciados por uma grande e muito diversificada
parcela da população.
Para alguém tentando
administrar essa necessidade premente de se travestir é muito importante
sentir-se bem a respeito de si próprio. E ninguém pode se
sentir muito bem quando dá ouvidos a pessoas diminuem a importância,
desqualificam ou até mesmo rechaçam abertamente suas necessidades
de se travestir. Quando alguém criticar as suas escolhas, reflita
calmamente sobre o que a pessoa lhe disse. Decida se a crítica lhe
traz algum proveito ou lhe oferece alguma sugestão útil de
como melhorar a sua situação.
O melhor aconselhamento vem de pessoas que lhe falem sobre as próprias experiências delas. Mas ao ouvir sobre procedimentos e estratégias que deram certo para outras pessoas, considere em que medida eles podem ou não funcionar para o seu caso. De qualquer maneira, conselho é algo que você ouve se quiser ou não.
Os crossdressers estão sempre muito interessados em saber como outros cds mais experimentados lidaram com o medo de exposição pública e com o medo de serem descobertos por outras pessoas. A maioria dos cds “armarizados” treme só de imaginar como seria se apresentarem em público travestidos ou o que aconteceria se alguém conhecido os descobrisse desse jeito. A simples sensação de se imaginar numa situação assim é capaz de fazer o seu mundo desabar. Na prática, contudo, a maior parte dos cds apanhados em situações desse tipo simplesmente “juntam os caquinhos” e continuam a viver numa boa.
É muito importante, para a sua saúde física e emocional, que os crossdressers superem o medo de ser descoberto, mesmo que eles nunca venham a sair do armário. Superar esse medo ajuda a reduzir a estigmatização que eles se auto-impõem até mesmo quando se travestem de forma totalmente solitária e isolada. Intimidade não é assunto para ninguém meter o bedelho, principalmente se ninguém está sendo molestado ou prejudicado.
Outro fato muito comum entre crossdressers de armário é a questão do “purge”. Como conseqüência da culpa, depois de se travestir muitos indivíduos jogam fora todas as suas peças e calçados femininos, recalcando pesadamente seus sentimentos para as profundezas do seu ser e jurando nunca mais voltar a fazer uma coisa dessas. É claro que este é um mecanismo extremamente mórbidos e doentio de lidar com algo basicamente saudável e inofensivo como é o crossdressing. A recomendação que dou para CDs que costumam agir dessa maneira é não jogarem tudo fora. Ao contrário, tentem encontrar um local adequado para guardar suas peças e objetos femininos até que se sintam desejosos de usá-los outra vez. Ao mesmo tempo, sugiro que aprendam a pensar e agir de maneira positiva, a sentir-se bem, a respeito do fato de possuírem uma identidade transgênera. Os homens sempre se travestiram ao longo da história; esse é fato comum e normal na vida de qualquer sociedade humana. Você não tem nada que se sentir culpado por causa disso. Uma vez que tenha atendido às suas responsabilidades e compromissos assumidos, tenha em mente que a questão mais importante de todas para uma pessoa transgênera é conseguir levar a vida com um razoável padrão de qualidade.
Você sente que a sua qualidade
de vida melhora quando você consegue se travestir? Você percebe
que o seu humor e o seu “estado de espírito” em relação
a si próprio e às outras pessoas melhora sensivelmente quando
você consegue viver com menos culpa, medo e ansiedade quanto a se
travestir? Você consegue satisfazer-se praticando o seu crossdressing
de maneira privada, até que se sinta confortável fazendo
isso mais “abertamente”? Se você respondeu "sim" às perguntas
anteriores, posso lhe dizer, pela minha experiência, que você
está conseguindo equacionar as coisas de modo bastante satisfatório
dentro dos seus limites atuais. Portanto, fique tranqüilo, pois a
probabilidade é muito alta que você saia do armário
quando realmente se sentir pronto e chegar à conclusão de
que é o quer, pode e deve fazer. Até lá, procure ser
gentil com você mesmo e apreciar o crossdressing por todas as coisas
boas que ele lhe proporciona. E não permita que outras pessoas façam
você se sentir dessa ou daquela maneira nem que critiquem ou desqualifiquem
a forma como você lida com suas próprias necessidades.