Curiosidade

 
 
 

Discutindo os Termos da Relação Crossdressing



Todas sabemos que praticar crossdressing NÃO SIGNIFICA ABSOLUTAMENTE IR CONTRA QUALQUER DISPOSITIVO LEGAL. Sendo assim, ninguém precisa ficar esperando uma lei que "autorize" a prática do crossdressing, porque seria um total contra-senso baixar-se uma lei para autorizar o que não é proibido.

A esposa, a família, a empresa, a sociedade não nos aceita PORQUE A GENTE NÃO SE FAZ SER ACEITO. Porque a gente não respeita o nosso desejo de se montar e curva a cabeça, em sinal de submissão a quem quer que seja, diante da possibilidade de SERMOS REJEITADOS. Acontece que, para não sermos rejeitados pelos outros, A GENTE ACABA REJEITANDO A NÓS MESMOS!!!

Para quem pratica alguma forma de fetichismo transvéstico, não existe nenhum problema em permanecer no armário, assim como jamais pode ser sentida a necessidade de se abrir ao mundo, expressando abertamente sua maneira de ser. Pelo contrário, ocultar a prática fetichista é quase sempre uma parte muito importante do próprio gozo fetichista!!!

Contudo, para quem vive dentro da pele algum grau de transgeneridade, a permanência no armário é sufocante, insuportavelmente auto-destrutiva. A gente vai se consumindo aos pouquinhos, vivendo numa espécie de terror emocional, onde sintomas de ansiedade, depressão, angústia, medo, agressividade, tédio e solidão vão se revezando para produzir um quadro de permanente desconforto e mal-estar.

A vida perde a cor e o sabor. Até mesmo travestir-se, que é a alegria do fetichista, torna-se um ato desprazeroso, ao ser praticado de maneira oculta por uma pessoa transgênera, seja ela crossdresser, travesti ou transexual (sempre ressalvando a figura do fetichista transvéstico, que não se enquadra de maneira nenhuma na condição de pessoa transgênera).

A única saída é sair do armário. Mas embora percebida claramente pela pessoa transgênera como a única saída possível para a recuperação de um nível mínimo de conforto pessoal é simultaneamente percebida como fonte de intensos e seriíssimos conflitos.

Se a pessoa é casada, noiva, tem namorada ou companheira firme, a mulher pode não aceitar (e é direito dela aceitar ou não aceitar, com certeza!). Nesse caso, sair do armário pode precipitar, sim, a separação do casal, com todos os desdobramentos associados a isso.

Então, para manter a “saúde” da relação, a maioria simplesmente reprime o desejo intenso que, volto a afirmar, NÃO É ILEGAL, NÃO DÁ CÂNCER E NÃO ENGORDA. A maioria se curva diante da vontade soberana da mulher que apenas espelha o preconceito existente na sociedade contra homens que se vestem ou se portam socialmente como mulheres. Prática que é tida como “aberração” pelas “tradições”, sustentadas grandemente por famigeradas religiões que, embora falidas, ainda continuam a alimentar o sofrimento e o desespero das pessoas humanas em nome do “amor” que pregam.

E a pessoa transgênera, o que faz? Uns poucos vão à luta, exigindo seus direitos de livre expressão garantidos pela própria Constituição. Mas a maioria simplesmente se curva diante da vontade poderosa e avassaladora da “tradição”.

Curva-se diante do medo de por “tudo a perder”... Mas perder o que? Uma relação já totalmente doente, em que as demandas de uma parte não podem ser reconhecidas e legitimadas pela outra parte, apenas por serem consideradas “fora das convenções” (ou “maléficas” e “demoníacas” nas estreitas visões religiosas de mundo?)

Curva-se diante da simples incapacidade do outro em perceber o que se passa conosco em nível tão profundo e de modo tão contínuo, sofrido e desgastante. Será que o transgênero faria isso com sua mulher? Será que seria incompreensível diante de algum desconforto intenso que sobre ela se abatesse?

A primeira exposição ao sair do armário é para as pessoas que estão próximas de nós. Para um transgênero vivendo em companhia de uma mulher, ela é fatalmente o primeiro público a assistir – ou a obstruir terminantemente a saída.

Toda relação é um intrincado e muito complexo sistema de trocas. Para a relação sobreviver de maneira justa – e, portanto, sadia – as partes devem conhecer as demandas um do outro e se esforçarem, minimamente que seja, para suprir tais demandas. Sem esse esforço de parte a parte, a relação vira uma arena de permanentes disputas, um interminável jogo de perde-ganha que, ao seu tempo, levará ou à acomodação de uma das partes ao peso da ditadura imposta pela parte vencedora, ou a um desfecho nada feliz da relação, quase sempre em caráter francamente litigioso.

Não faz bem para a auto-estima de quem quer que seja permanecer numa relação em que não ela não é aceita ou em é aceita apenas parcialmente ou em caráter condicional. Nessas condições, mais cedo ou mais tarde, o ego ou se acomoda ou se revolta. Embora todo o desconforto que acertos internos do casal possam causar, melhor discutir os termos da relação para não deixá-la terminar em "outros termos".