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11 Providências Fundamentais para Assumir o Crossdressing
Embora muitas de nós, até por defesa psíquica, procurem sistematicamente enxergar o crossdressing apenas através da lente doce e iluminada de uma feminilidade idealizada, quero dizer - por minha experiência e sofrimento pessoal - que travestismo masculino não é brincadeira não. É coisa pra fundir a cuca de qualquer pessoa, por mais sensata e equilibrada que seja.
São absurdamente altos, cansativos e desgastantes os muros - pessoais e sociais - a serem vencidos. E parecem não se acabar jamais.
Primeiro, a gente tem que vencer a maldita idéia cultural, profundamente arraigada dentro de nós, de que “ser homem” ou “ser mulher” é uma condição herdada da natureza e que, portanto, pelo simples fato de se ter um pinto ou uma vagina – de ter barba e bigode ou sangrar mensalmente – a gente tem que ser e agir do jeito que a sociedade espera de nós.
Segundo, a gente tem que vencer a maldita “ditadura do espelho” que nos diz, baseado nesses “esculturais corpos de mulher”, devidamente “photoshopeados” dos outdoors, que a gente jamais conseguirá convencer a ninguém – principalmente a nós mesmos – da nossa suposta “feminilidade”. Entretanto, a toda hora cruzamos com mulheres que, justamente por serem mulheres mesmo, estariam, comparativamente, em muito piores condições do que nós, se colocadas lado a lado com essas monumentais capas da Playboy.
Terceiro, a gente tem que se desvencilhar das questões da sexualidade que, também por força de aprendizado social, aparecem na nossa cabeça completamente misturadas com as questões de transgeneridade. Se uma pessoa tem orientação homossexual não significa absolutamente que ela está identificada com a mulher ou até que “deseja ser” uma mulher. Muito pelo contrário, homossexuais buscam pessoas do seu PRÓPRIO SEXO!!! Em tese, quanto mais másculo e em forma física “masculina”, mais desejo sexual um homem desperta sobre outro homem homossexual. Assim, se um homem se veste de mulher objetivando fazer sexo com outro homem, em princípio está cometendo um erro de cálculo que pode lhe custar um excelente programa. A menos, é claro, que ele encontre ALGUÉM QUE GOSTE DE HOMEM VESTIDO DE MULHER, ou seja, que goste de travesti, e isso existe aos montes. Mas o que eu quero dizer é que muitos homossexuais ainda enrustidos (por serem casados, por medo de exposição pública, por um agudo sentimento de culpa, etc) acabam se travestindo a fim de realizarem o seu desejo de maneira – na crença deles – menos "culposa", pois não suportariam descobrir-se fazendo amor, como homem, com outro homem. Valer-se do travestismo para manifestar a própria homossexualidade é um expediente totalmente desnecessário no mundo de hoje, onde essa forma de orientação sexual está totalmente reconhecida como natural e é plenamente aceita pela maioria da sociedade, ao contrário do travestismo, que ainda continua sendo altamente repudiado.
Quarto, a gente tem que aceitar a idéia de que as pessoas à nossa volta, inclusive as mais próximas e as mais queridas, podem não gostar nem um pouquinho de saber que a gente se traveste. E não adianta querer tapar o sol com a peneira, fazendo tudo escondido, achando que ninguém nunca vai saber de nada. No mundo de hoje, além de ouvidos, as paredes têm câmeras, transmitindo todos os nossos movimentos, em tempo real, para o mundo inteiro... Dizer que “a minha mulher nunca vai saber” é tão tolo e ingênuo quanto julgar-se capaz de cometer o “crime perfeito”. Então é necessário comunicar, dizer, mostrar-se por inteiro, falar desses desejos e necessidades incontroláveis que nos perseguem dia e noite e que se tornam tão cruelmente dolorosos quando são duramente reprimidos. Ao falar, não podemos esperar nem compreensão nem aceitação. Se estas vierem, será um verdadeiro "presente dos deuses". Mas, se não vierem, pelo menos diminuem enormemente o peso da carga, além de nos obrigar a encontrar caminhos e alternativas, autênticas e verdadeiras, para a nossa realização.
Quinto,
a gente tem que buscar compreender e desenvolver “atitudes femininas” antes
de dominar técnicas apuradas de vestuário e maquiagem. Uma
mulher não é mulher porque está vestida de mulher,
mas porque demonstra atitudes consideradas próprias da mulher. São
as atitudes que fazem uma mulher ser reconhecida como mulher - ou um homem,
como um homem, ainda que esteja vestido de mulher! O hábito não
faz o monge, diz o velho ditado... Conheço CDs que são figuras
absolutamente fantásticas de mulher quando estão vestidas
e maquiadas. O problema é que a ilusão de ótica se
desfaz inteiramente na primeira passada ou na primeira palavra dita, mesmo
quando elas inflexionam a voz achando que assim se tornam mais "femininas"
e tudo que conseguem é piorar as coisas ainda mais com aquela irritante
tonalidade do “pato donald”...
Agora o seguinte: - "atitude"
de mulher não tem nada a ver com desmunhecamento, com exageros de
caras e bocas, com frescuras além de toda conta. Nenhuma mulher
faz isso, gente! Nem as peruas mais afetadas! Atitudes assim só
existem na cabeça de homem que se recusa terminantemente a entrar
no “Espírito Feminino”, mesmo quando consegue aparentar uma bela
imagem de mulher. Mulher é dócil, mas é firme na sua
doçura. Mulher caminha com leveza, mas não rebola feito uma
bote na água. Mulher gesticula com graça, mas não
desmunheca. Mulher fala com suavidade, mesmo quando não tem a voz
fina...
Sexto, a gente tem que se conformar com a própria sorte (melhor seria dizer com o próprio azar...), aceitando a total inexistência de explicações lógicas, objetivas e racionais para esse nosso impulso interior que nos leva a querer loucamente nos travestir. Não adianta tentar entender "logicamente" o que se passa conosco. Não adianta fundir a cuca tentando encontrar justificativas pseudo-científicas ou místico-religiosas para essa nossa condição. Isso só atrasa o desenvolvimento do nosso próprio ser, impedindo o desabrochar de algo que hoje eu considero ser totalmente natural dentro de nós, e cujo impedimento é capaz de nos mandar para a cama, com males físicos reais, que vão desde uma prosaica e insistente dor de cabeça até um câncer. Por isso mesmo, ficar eternamente no armário, para quem traz dentro de si o embrião da transgeneridade, é a mesma coisa que condenar-se a uma morte - física e psíquica – lenta, persistente e nada sutil...
Sétimo, a gente tem que mergulhar fundo nos nossos próprios sentimentos a respeito da nossa condição de crossdresser – e administra-los com muita competência – sob pena de sermos devorados por eles, sem a menor piedade. O medo, sem dúvida alguma, encabeça a lista desses sentimentos. Castigo! Pois, por sermos “menininhos”, sempre ouvimos na nossa infância que homem não tem nem pode ter medo... Mas acontece que a gente tem medo - e são muitos. O medo de se expor aos olhos implacáveis das outras pessoas (que, no fundo, é o nosso próprio olhar nos olhando...). O medo de ser abandonado pela esposa, pelos filhos, pelos familiares se eles vierem a saber de uma coisa dessas. O medo de ser descoberto por chefes e colegas de trabalho e ter uma brilhante carreira profissional instantaneamente manchada por esse "lodo irremovível". O medo do ridículo, de passar por palhaço, de ser motivo de gozação, ao sair em público vestido de mulher. O medo de ter a própria sexualidade confundida ou devassada pela "opinião pública", sempre ávida de escândalos e “casos escabrosos”.... O medo de terminar sozinho, pobre e sem dinheiro, como um travesti desonroso e um homem desonrado. O medo de ceder ao desejo e tirar os pés fora da realidade, para nunca mais voltar; de enlouquecer, de perder o controle, o juízo, as forças... São tantos medos e a gente é tão frágil que o maior medo de todos é da gente não agüentar e ir a pique. E na raiz de todos esses medos está a maneira como nós próprios nos concebemos. Leia de novo o texto acima e verá que por trás de todos os "medos" está a concepção perversa e monstruosa que temos de nós mesmos. Assim, o ponto de partida para administrar todos os demais sentimentos é acreditar que a gente é apenas uma criatura humana comum e normal como todos os demais. Diga-se de passagem, essa é a tarefa mais difícil e complexa que uma pessoa transgênera tem pela frente: - a auto-aceitação.
Oitavo, a gente tem que se organizar para viver essa mulher que existe dentro de nós. Apesar de mansa e suave, ela é uma dominadora implacável e, se deixarmos, ela nos escraviza além de todas as medidas, podendo até nos levar à mingua, como qualquer “amante cara e cheia de vontades”... Essa mulher que trazemos dentro de nós é um ser buscando realizar-se, um ser dotado de vontade própria, capaz de valer-se de todos os expedientes para atingir os seus fins. Fingir que ela nãso existe ou não lhe dar trela – como faz a maioria silenciosa que passa a “vida”(?) trancada nos seus armários – é o mesmo que estimular a sua fome permanente e insaciável de tornar-se real e de se locomover livremente no mundo, através de nós. Dar-lhe toda a corda desejada, de uma vez só, é perder-se e fazer com que ela se perca definitivamente, embarcando numa viagem sem volta, que pode lhe custar tão caro quanto o seu aprisionamento incondicional. Confesso que encontrar esse meio termo, entre soltar e prender, caminhar e parar, premiar e frustrar, é mais uma tarefa delicada e complexa da vida de um CD (como se tivesse alguma tarefa fácil nessa vida de CD...)
Nono, a gente tem que saber, o mais cedo possível, o que a gente realmente quer e quem a gente pelo menos pensa e/ou sente que é. Qual é a nossa verdadeira condição de crossdresser: - surfistas de calcinha, navegando solitários, altas horas da noite, com a webcam ligada, ou verdadeiras mulheres não-genéticas com (quase) todos os atributos de qualquer outra fêmea? Entre um extremo e outro, existem infinitas possibilidades e, para cada uma delas, infinitos “ajustes” serão necessários no modo de vida pessoal de cada um. Outra coisa: o que a gente quer e o que a gente jamais comportará uma resposta única, válida para a vida inteira. Trata-se de um processo diário de (re)descoberta pessoal, onde tudo que a gente acreditava ainda ontem como verdadeiro e definitivo, pode mostrar-se hoje como insuficiente ou totalmente inválido.
Décimo,
a gente tem que aprender a se abrir e a procurar ajuda. Nosso aprendizado
de homem nos ensina, dentre outras besteiras catastróficas para
um ser humano, a não precisar de ajuda, a não depender de
ninguém, a ser auto-suficiente em tudo, a saber de tudo, entender
de tudo ou, pelo menos, manter a “pose” de que entende. O travestismo nos
coloca numa condição totalmente oposta a esse modelo de masculinidade
que nos foi “empurrado” goela abaixo, anos à fio. Tornamo-nos pessoas
altamente vulneráveis, miseravelmente reduzidas no status e reconhecimento
social (travesti é a décima pessoa depois de ninguém,
na escala social; a mulher é apenas a quinta...), expostas a toda
uma série de “carências” antes insuspeitas em nossas vidas,
que vão desde o cuidado com a pele até a escolha do guarda
roupa mais adequado ao nosso tipo físico. Mas a carência maior
é psíquica, emocional mesmo. Precisamos de alguém
com quem conversar, com quem dividir nossas angústias, nossos medos
terríveis e até nossas pequenas alegrias e grandes esperanças...
E, certamente, as pessoas mais adequadas para isso não poderão
ser nossos grandes amigos do choop ou do futebol. Eles poderão se
assustar, nos excluir ou nos gozar para o resto da vida. A esposa, quase
sempre, se sabe da nossa condição, fica tão carente
de ajuda e apoio quanto nós. Muitos, que têm condições,
procuram ajuda clínica de um(a) terapeuta. Mas a maioria dos terapeutas
estão pouquissimamente informados a respeito dos complexos aspectos
da transgeneridade. Assim, muitas vezes a “ajuda” acaba mais “atrapalhando”
do que minimizando nossos conflitos. E, no entanto, a necessidade de se
abrir com alguém permanece. A vulnerabilidade exposta continua crescendo
e o “buraco” interior precisa de alguém para não deixar que
a gente caia nele para sempre.
Assim...
Décimo-primeiro,
a gente tem que buscar a aproximação com os nossos semelhantes
"mais semelhantes". São eles, em primeira e última instância
que, a despeito das peculiaridades da vida de cada um, poderão nos
fornecer indicações mais seguras de como encarar e enfrentar
as necessidades e vicissitudes próprias da nossa condição
transgênera. São eles, também, que poderão nos
suprir da companhia indispensável para “cruzarmos as muralhas” do
gênero masculino, em busca de uma vivência social para a mulher
que existe dentro de nós. Em um mundo tão complexo e instável
como é o nosso, apenas a companhia de pessoas semelhantes a nós
poderá nos aliviar dos pesos enormes que, caso contrário,
teríamos que transportar sozinhos. Se você está em
dúvida se é ou não realmente uma pessoa transgênera
ou se já é um crossdresser em busca de mais luz em sua vida,
seu melhor investimento será, sempre, engajar-se em um grupo de
apoio e lá encontrar pessoas com quem possa discutir e vislumbrar
caminhos, tanto para suas necessidades triviais quanto para os seus desejos
e dificuldades mais íntimos.