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Crossdresser: Uma Jornada de Descoberta Pessoal
Esconda o mais que puder, adie o quanto quiser, o impulso para se travestir não vai desaparecer nunca da vida de um homem!!! De nenhum homem, se querem saber, porque estamos longe de ser as únicas infelizes nesse mundo que foram obrigadas a reprimir sua "parte mulher", em nome de assumir a carga idealizada do gênero masculino: - TODO HOMEM VIVE ESSE CONFLITO, por mais que a maioria repudie essa idéia de modo radical e até violento. Essa é a conclusão a que cheguei depois de me observar e me acompanhar durante anos, mergulhando fundo em reflexões e pesquisas, além de trocar informações continuamente com outras pessoas e profissionais que, como eu, têm vivido o fenômeno "na própria pele".
Crossdressing não é um mero "impulso sexual" e muito menos um capricho inconseqüente na vida de um homem, como boa parte da sociedade reprimida, alienada, mal informada e mal intencionada acredita e quer nos fazer crer que é. Trata-se de uma necessidade de crescimento, de liberação das potencialidades que ficam recalcadas dentro do macho em virtude da repressão social de que ele é vítima desde o momento que nasce e é rotulado como membro do "gênero masculino".
Todos os aspectos femininos da personalidade de um homem são brutalmente rechaçados pela família, pela escola e pela sociedade, de maneira que tudo no comportamento de um homem que possa estar relacionado com a mulher deve ser inteiramente descartado, a fim de que o menino obtenha a aceitação social de que todos nós seres humanos precisamos e somos carentes.
O problema é que esses tratos femininos, rechaçados pela sociedade, NÃO DESAPARECEM, mas apenas ESMAECEM do comportamento exterior do homem, sendo INTERNALIZADOS, ou seja, reprimidos e recalcados para as áreas mais profundas e obscuras do seu ser.
São relativamente poucos os homens que descobrem ainda muito cedo - de maneira natural e não patológica - essa absurda repressão de que o macho é vítima na sociedade. Para a maioria, é somente com a chegada da "meia idade", já com a vida pela metade - e a morte chegando cada vez mais perto - que as repressões dos aspectos femininos da personalidade realmente começam a causar sérios desconfortos e preocupações.
Muitos homens jamais saberão ou aceitarão que sua irritabilidade crescente, sua permanente ansiedade, sua busca desenfreada por realizações espetaculares ou feitos radicais, ou mesmo que a sua gastrite e a sua pressão alta (para não dizer até mesmo um câncer...) tiveram sua origem no desconforto imenso da repressão que foram obrigados a fazer do trato feminino da sua personalidade.
Na completa ausência de referencial social (o tema é tabu!!!), muitos começam a se perguntar se são gays ou o quê, quando se imaginam "imitando" ou dando vazão a tratos considerados femininos.
Muitos entram em profunda ansiedade e depressão, considerando-se DOENTES, depravados, tarados, ou fetichistas, sem saberem que tal manifestação é perfeitamente NORMAL e SAUDÁVEL, que o impulso para se travestir nada mais é do que mecanismo de adaptação do organismo, que busca assim liberar e desenvolver potencialidades travadas dentro do indivíduo.
Têm sorte os que conseguem deixar seus armários e começam a se travestir com mais liberdade e naturalidade, sem experimentarem a culpa, a vergonha, as restrições morais ou a própria imagem idealizada que desenvolveram do que é SER HOMEM. Eu disse têm sorte - mas não será melhor dizer "coragem"? A Rogéria, uma das mais conhecidas travestis brasileiras, sempre disse que um homem tem que ser muito macho para se vestir de mulher...
Para muitos homens, a crise da descoberta da sua "mulher reprimida" pode parecer (e para muitos realmente é...) o ponto final.
Mesmo os que deixam seus armários, que liberam inclusive seus lances relacionados a uma eventual sexualidade reprimida - mesmo eles podem permanecer anos e décadas no estágio da "dúvida": - quem eu realmente sou? Devo ou não me hormonizar? Devo ou não realizar cirurgia, de modo a "libertar" de maneira definitiva a mulher presa, desde a minha infância, no meu interior?
Desde que comecei a minha jornada, descobri que obter "ajuda especializada" é algo quase impossível: - profissionais mulheres dificilmente conseguem libertar-se das suas próprias amarras sociais para ao menos "legitimar" a aspiração aparentemente anormal e tresloucada dos homens que, quase como última saída, se submetem a procurá-las. Para a esmagadora maioria das profissionais, o "capricho" de um homem "vestir-se de mulher" é só isso mesmo: - um capricho, que poderá "ceder" ou "acomodar-se" com o tempo. Para os profissionais homens, o problema é ainda maior, uma vez que a presença de um macho como eles, solicitando ajuda para libertar a mulher presa em seu interior, faz com que eles próprios tenham que encarar os gritos desesperados das suas próprias mulheres enclausuradas. A maioria dos profissionais homens simplesmente "capitula". A despeito dessa quase impossibilidade de se obter ajuda externa, esse é o conselho que mais se ouve: - busque ajuda especializada. ..
Talvez seja por isso mesmo que a maioria de nós jamais busque qualquer forma de ajuda, talvez sabendo intuitivamente que ela pode mais "atrapalhar" do que "contribuir" para a reorganização de todo o nosso ser, após a "descoberta" de uma "mulher aprisionada" dentro da gente. Mas a questão é que o "lugar interior" onde se encontra a "mulher reprimida" de todo homem não é de maneira nenhuma um local de fácil acesso!!! Poucos conseguirão trilhar sozinhos a dificílima caminhada rumo à auto-aceitação!!! Pior, na busca por "atalhos" que "facilitem" o processo ou tornem a jornada menos dura e mais "prazerosa", muitos acabam se distanciando ainda mais de si mesmos e terminam dando voltas em torno de um eixo imaginário que está sempre mais distante da sua própria realidade.
Para entender o mínimo desse fenômeno crossdressing, que eu própria vivo, tive que mergulhar fundo no meu próprio laboratório, contando, às vezes, unicamente comigo mesma - e às vezes, nem comigo. Tive, eu mesma, que ser o "fio de Ariadne" para que o meu masculino "Teseu" penetrasse fundo no labirinto onde minha "mulher interior" é vigiada noite e dia por uma terrível criatura chamada "civilização, cultura, gênero, moral e sociedade".
É essa terrível e onipresente criatura que impede todo homem de realizar a “outra metade” do seu ser, a metade feminina que foi abafada, negada, reprimida e recalcada em nome da manutenção de uma “fachada socialmente tolerável”.
Vencida, pelo menos em parte,
a batalha com o "minotauro da censura interior", representado pelo ideal
da masculinidade, estou podendo descortinar cada vez mais a imensa força
criativa, o imenso potencial de "cura" existente no crossdressing. Em vez
de me envergonhar, fugir, negar ou esconder o meu crossdressing, tenho
conseguido transformá-lo no principal mecanismo de crescimento e
desenvolvimento do meu ser.